Uma das minhas decisões para o ano de 2013 foi tomada ainda 2012 estaria longe de acabar.
O meu vizinho da frente na empresa corria três ou quatro vezes por semana e ia a corridas a sério. Tinha um plano de treino a sério. E levava aquilo a sério. Levanta-se uma hora mais cedo, ainda de noite, só para ir treinar! Era mesmo a sério.
Eu, que pratiquei desporto tanto tempo, percebia aquela mania e ficava cheia de inveja, quando ele chegava ao escritório já com meia dúzia de quilómetros feitos e aquela energia que os atletas têm. Depois descobri que havia mais uma pessoa que também fazia as suas corridas. Não era tão sério, mas costumava ir ao ginásio à hora de almoço correr. Ia desistir do ginásio. Como dizia o marido... 'Não sei como consegues correr dentro de um ginásio. Correr é na rua.'
E perdiam-se a falar sobre os benefícios de uma corridinha.
Ora eu não posso ver nada. Sou como a outra Maria... Quanto vê, quanto cobiça.
E aquilo parecia tãão fixe que eu também queria, claro.
Mas como não tinha a ilusão de conseguir sair um dia a correr sem ter uma síncope cardíaca ao fim da rua, pensei que talvez fosse melhor começar por uma coisa mais suave. Oh abençoada e maravilhosa ideia peregrina!
Ia engrossar essa multidão que tomou de assalto as ruas deste país nos últimos anos.
Ia começar a andar a pé.
Ora, no ano passado tinha metido na ideia que ia aprender a tocar um instrumento musical. Não era um instrumento qualquer. Ia aprender a tocar piano. Tenho uma escola de música aqui perto de casa e ia meter-me de cabeça na musica.
Ia ser um prodígio daqueles descobertos tardiamente.
Palcos e públicos rendidos, deslumbrados pelo meu génio.
As melodias dos mestres ansiosas por se libertarem das partituras.
Mas pronto. Nunca passava pela escola. Pelo menos a pé. :P
E o entusiasmo foi passando, passando... Até que passou de vez.
Nunca sequer cheguei perto de um piano e passou-me a vontade de me amigar com ele.
Pensando agora à distância, talvez tenha sido melhor assim. Aprender piano não é só chegar lá, martelar as teclas e espezinhar os pedais. Embora a ideia me pareça bastante reconfortante neste momento... Aprender piano, ou estudar piano, como dirão alguns pseudoentendidos, requer uma disponibilidade de agenda e de cabeça, que eu, muito honestamente, não tinha. E continuo sem ter.
2013
Nem pensar em ficar outra vez por intenções!
Tinha-me decidido a começar a fazer caminhadas. E assim fiz.
Na semana passada comecei a andar a pé pelas ruas.
No primeiro dia saí de casa depois de deixar o baixinho na escola e dar um jeito na casa.
Não tinha bateria no MP3, por isso agarrei no telemóvel, enfiei-lhe uns auriculares e pus o cronómetro do relógio a zeros. Lá fui eu. 40 minutos depois cheguei a casa. De repente dei conta que estava à porta do prédio, mas tive vergonha de dar mais umas voltas ao quarteirão só para fazer um hora de caminhada. Pareceu-me infantil e tolo. Nem aqueci a roupa, a bem da verdade, mas achei melhor começar com calma.
Esta vontade de começar devagar passou-me depressa, porque no dia seguinte não tive dores musculares. Não me senti cansada. Aterrar no sofá depois de deitar o baixinho é normal, por isso não conta... Devia estar a fazer alguma coisa mal.
Mas ao mesmo tempo fiquei tão orgulhosa! Afinal não estava assim tão enferrujada... :)
No segundo dia mentalizei-me que tinha de esticar um bocadinho a corda.
Arranjei uma banda sonora mais acelerada, uma volta maior e larguei a andar como se não houvesse amanhã. Arranjei maneira de manter um ritmo acelerado, mas certo e mantive-o durante 55 minutos! Palmas para mim!! Já não me lembrava que ao fim de alguns minutos a roupa começa a incomodar, mas senti-me bem. Lá ia eu toda confiante rua fora, os ACDC aos gritos nos meus tímpanos. Cheguei a casa toda transpirada. Coração acelerado.
Fixe, pensei. É mesmo isto!
Nessa tarde limpei a casa toda. Aspirei e lavei chão. Limpei móveis. Lavei casas de banho e cozinha. Sacudi a alma à casa.
No dia seguinte sentia-me cansada, mas nada de extraordinário. Nem dores nas pernas, nem nada... Estava óptima.
Terceiro dia. Hoje.
Sai de casa com a mesma banda sonora e cheia de força de vontade. Comecei a andar devagar e fui apertando o passo até, acho eu, ao mesmo ritmo do dia anterior. Senti-me bem, com genica e nisto, passa uma rapariga no sentido contrário, esgotada a tentar correr, o queixo ligeiramente levantado como se se estivesse a afogar. Será instintivo, este movimento? E pensei, 'Coitada! Rebentou.' Mas ela lá ia. Desesperada por oxigénio e com dificuldades em manter as pernas sob controlo. Mas lá ia.
Ora se esta rapariga consegue, apesar da figura lamentável que ia a fazer publicamente, eu também consigo. E largo a correr como se tivesse corrido toda a vida e mais seis meses. Primeiro foi a respiração. Já não me lembrava que era difícil como o diabo manter a respiração controlada sem ficar com aquela sensação de vazio doloroso no meio do peito. Talvez estivesse com o queixo ligeiramente levantado... Depois foram as pernas. Também já não me lembrava que elas ganhavam vontade própria à medida que o chão nos desaparece debaixo dos ténis. Talvez tenha tido alguma dificuldade em manter o controlo das minhas pernas... Cheguei a casa toda transpirada. O coração esquecido lá ao pé das bombas de gasolina.
Fixe, pensei... Amanhã estou de cama. Não é mesmo nada disto...
Tomei banho, almocei e sentei-me no sofá com o pc.
Se calhar vou tomar um ben-u-ron.
Diz-se que os vícios se apanham de qualquer coisa.
Mas parece que estou com dificuldade em apanhar este...
Deve ser do tempo.
Está um frio que não se pode.
Doméstica à Força
terça-feira, 15 de janeiro de 2013
quarta-feira, 9 de janeiro de 2013
Doméstica à Força
(i.e., despediram-me)
Estou em casa.
Finalmente acho que me caiu a ficha, como comentei com um amigo meu.
A situação tinha-se tornado tão insustentável, que a dispensa foi apenas uma consequência natural, e a bem da verdade, um alívio.
Não sei quanto tempo mais conseguiria manter o meu brio profissional.
Por isso. Agora sou doméstica. À força.
Já não é a primeira vez que estou nesta situação. Aliás! Da primeira vez foi bem pior. Não tive direito a apoio nenhum a não ser o do meu marido, logo....
Desta vez tive direito ao subsídio de desemprego.
Não consigo deixar de sentir um bocadinho de vergonha...
Fiz os devidos descontos. Preparei esta possibilidade. Especialmente na minha cabeça. Mas isto de ser subsídio dependente... Soa-me mal. Mesmo tendo direito a ele...
Bom.
E agora chegou a hora.
Estou em casa.
Em casa a fazer aquilo que muitas mulheres fizeram antes de mim e outras tantas mulheres durante todo o tempo que nos restar nesta insignificância perdida na Via Láctea vão fazer.
Não é o meu primeiro blogue.
Pensando assim uns segundos... Acho que é para aí o terceiro. Não. É o quarto. Acho que é o quarto. Não sou lá muito perseverante, pois não?
Ora, gosto de me ouvir. Ou ler, no caso. Escrevo coisas desinteressantes. Vomito disparates. E então?
Também não incomodo ninguém... E continuar a ler isto é uma opção do leitor. Ignorar isto agora, não vai trazer 7 anos de azar a ninguém. Nem trazer problemas com as finanças. Ou tragédias matrimoniais.
Já dar demasiada atenção a este chorrilho... Não sei. Adiante.
Há um ditado popular que diz que 'Quem tem vagar, faz colheres.'
Eu faço coisas.
Escrevo umas tonteiras.
Faço ímanes de frigorífico com o meu baixinho.
Reinvento receitas. (é a única maneira que tenho de dizer airosamente que nunca sigo uma receita à risca...) Gosto de cozinhar.
Faço estrelas em origami.
Leio. Gosto mesmo de ler.
Vejo séries no AXN.
E tomo conta da casa. O que por si só... Enfim. Toda a gente sabe o que custa tomar conta de uma casa. :s
E agora tenho este blogue.
Ena.
Tenho aqui um cantinho só meu para disparatar até à exaustão, se quiser.
Só ainda não sei o que vou meter aqui.
Quando disse ao meu marido que ia criar um blogue, ele disse-me, 'Boa... de comida!'.
Acho que um dos outros blogues em que me aventurei uma vez era sobre comida.
Escrevia lá umas receitas e ia conversando de permeio.
Acho que vou voltar a meter-me por aí.
Ou não.
Por enquanto ficamos nesta decisão. Não decidir.
É uma decisão boa, esta.
Até porque ainda tenho uns meses de subsídio de desemprego e de procurar emprego ao mesmo tempo.
Tough luck.
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