terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Uma das minhas decisões para o ano de 2013 foi tomada ainda 2012 estaria longe de acabar.
O meu vizinho da frente na empresa corria três ou quatro vezes por semana e ia a corridas a sério. Tinha  um plano de treino a sério. E levava aquilo a sério. Levanta-se uma hora mais cedo, ainda de noite, só para ir treinar! Era mesmo a sério.
Eu, que pratiquei desporto tanto tempo, percebia aquela mania e ficava cheia de inveja, quando ele chegava ao escritório já com meia dúzia de quilómetros feitos e aquela energia que os atletas têm. Depois descobri que havia mais uma pessoa que também fazia as suas corridas. Não era tão sério, mas costumava ir ao ginásio à hora de almoço correr. Ia desistir do ginásio. Como dizia o marido... 'Não sei como consegues correr dentro de um ginásio. Correr é na rua.'
E perdiam-se a falar sobre os benefícios de uma corridinha.
Ora eu não posso ver nada. Sou como a outra Maria... Quanto vê, quanto cobiça.
E aquilo parecia tãão fixe que eu também queria, claro.
Mas como não tinha a ilusão de conseguir sair um dia a correr sem ter uma síncope cardíaca ao fim da rua, pensei que talvez fosse melhor começar por uma coisa mais suave. Oh abençoada e maravilhosa ideia peregrina!
Ia engrossar essa multidão que tomou de assalto as ruas deste país nos últimos anos.
Ia começar a andar a pé.

Ora, no ano passado tinha metido na ideia que ia aprender a tocar um instrumento musical. Não era um instrumento qualquer. Ia aprender a tocar piano. Tenho uma escola de música aqui perto de casa e ia meter-me de cabeça na musica.
Ia ser um prodígio daqueles descobertos tardiamente. 
Palcos e públicos rendidos, deslumbrados pelo meu génio.
As melodias dos mestres ansiosas por se libertarem das partituras.
Mas pronto. Nunca passava pela escola. Pelo menos a pé. :P
E o entusiasmo foi passando, passando... Até que passou de vez.
Nunca sequer cheguei perto de um piano e passou-me a vontade de me amigar com ele.
Pensando agora à distância, talvez tenha sido melhor assim. Aprender piano não é só chegar lá, martelar as teclas e espezinhar os pedais.  Embora a ideia me pareça bastante reconfortante neste momento... Aprender piano, ou estudar piano, como dirão alguns pseudoentendidos, requer uma disponibilidade de agenda e de cabeça, que eu, muito honestamente, não tinha.  E continuo sem ter.

2013
Nem pensar em ficar outra vez por intenções!
Tinha-me decidido a começar a fazer caminhadas. E assim fiz.
Na semana passada comecei a andar a pé pelas ruas.

No primeiro dia saí de casa depois de deixar o baixinho na escola e dar um jeito na casa.
Não tinha bateria no MP3, por isso agarrei no telemóvel, enfiei-lhe uns auriculares e pus o cronómetro do relógio a zeros. Lá fui eu. 40 minutos depois cheguei a casa. De repente dei conta que estava à porta do prédio, mas tive vergonha de dar mais umas voltas ao quarteirão só para fazer um hora de caminhada. Pareceu-me infantil e tolo. Nem aqueci a roupa, a bem da verdade, mas achei melhor começar com calma.
Esta vontade de começar devagar passou-me depressa, porque no dia seguinte não tive dores musculares. Não me senti cansada. Aterrar no sofá depois de deitar o baixinho é normal, por isso não conta... Devia estar a fazer alguma coisa mal.
Mas ao mesmo tempo fiquei tão orgulhosa! Afinal não estava assim tão enferrujada... :) 

No segundo dia mentalizei-me que tinha de esticar um bocadinho a corda.
Arranjei uma banda sonora mais acelerada, uma volta maior e larguei a andar como se não houvesse amanhã. Arranjei maneira de manter um ritmo acelerado, mas certo e mantive-o durante 55 minutos! Palmas para mim!! Já não me lembrava que ao fim de alguns minutos a roupa começa a incomodar, mas senti-me bem. Lá ia eu toda confiante rua fora, os ACDC aos gritos nos meus tímpanos. Cheguei a casa toda transpirada. Coração acelerado.
Fixe, pensei. É mesmo isto!
Nessa tarde limpei a casa toda. Aspirei e lavei chão. Limpei móveis. Lavei casas de banho e cozinha. Sacudi a alma à casa.
No dia seguinte sentia-me cansada, mas nada de extraordinário. Nem dores nas pernas, nem nada... Estava óptima.

Terceiro dia. Hoje.
Sai de casa com a mesma banda sonora e cheia de força de vontade. Comecei a andar devagar e fui apertando o passo até, acho eu, ao mesmo ritmo do dia anterior. Senti-me bem, com genica e nisto, passa uma rapariga no sentido contrário, esgotada a tentar correr, o queixo ligeiramente levantado como se se estivesse a afogar. Será instintivo, este movimento? E pensei, 'Coitada! Rebentou.' Mas ela lá ia. Desesperada por oxigénio e com dificuldades em manter as pernas sob controlo. Mas lá ia.
Ora se esta rapariga consegue, apesar da figura lamentável que ia a fazer publicamente, eu também consigo. E largo a correr como se tivesse corrido toda a vida e mais seis meses. Primeiro foi a respiração. Já não me lembrava que era difícil como o diabo manter a respiração controlada sem ficar com aquela sensação de vazio doloroso no meio do peito. Talvez estivesse com o queixo ligeiramente levantado... Depois foram as pernas. Também já não me lembrava que elas ganhavam vontade própria à medida que o chão nos desaparece debaixo dos ténis. Talvez tenha tido alguma dificuldade em manter o controlo das minhas pernas... Cheguei a casa toda transpirada. O coração esquecido lá ao pé das bombas de gasolina.
Fixe, pensei... Amanhã estou de cama. Não é mesmo nada disto...
Tomei banho, almocei e sentei-me no sofá com o pc.
Se calhar vou tomar um ben-u-ron.

Diz-se que os vícios se apanham de qualquer coisa.
Mas parece que estou com dificuldade em apanhar este...
Deve ser do tempo.
Está um frio que não se pode.

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